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Benvindos Freguesia de Gonçalo

Cestaria

A Cestaria de Gonçalo – “Gonçalo terra de artistas com arte”

Gonçalo é uma freguesia no concelho da Guarda onde a produção de cestos em verga e vime ainda assume um papel importante na atividade económica local. A cestaria de Gonçalo revela-se de uma importância extrema, não só por ser uma atividade milenar -“uma tradição que advém, segundo se crê, de uma época muito anterior à ocupação romana, numa altura em que Gonçalo estava localizado num Castro e onde já se usavam cestos como utensílios quotidianos” - como também por se apresentar como o “berço” da cestaria fina do país. A grande maioria dos cesteiros que existem em Portugal teve as suas raízes nesta localidade.

Está por fazer a investigação e o estudo que a extraordinária produção de Gonçalo há muito justifica e exige. Desconhece-se, ao certo, em que circunstâncias aqui se desenvolveu tão importante centro produtor de uma cestaria que se executa, sobretudo, em vime, mas onde o salgueiro já desempenhou um importante papel, e o bambu coexiste nas peças mais contemporâneas. 

Também se desconhece como se desenvolveu e definiu a sua área de mercado que atingia mesmo o litoral da Região. Os antigos centros produtores da Espadaneira, Eiras, Ribeira de Frades e Taveiro, no concelho de Coimbra, ou da Carapinheira do Campo, no concelho de Montemor-o-Velho, ter-se-ão constituído em consequência de antigas rotas, usadas pelos cesteiros de Gonçalo na comercialização dos seus cestos, por todo Campo do Mondego, ou mesmo pela Gândara, onde faziam a Feira de Cantanhede. A ligação do Campo à Serra da Estrela é antiga, de séculos, pois que até há umas dezenas de anos atrás constituía um dos destinos de Inverno para os rebanhos transumantes.

Não existem, pois, nem a cronologia nem os números que caracterizem Gonçalo e a sua produção ao longo do tempo. 

O ofício de cesteiro não tem características gêndricas tão acentuadas como se pensa habitualmente e, em Gonçalo, não só é banal haver mulheres cesteiras, como essa situação é muito antiga, não tendo nada a ver com movimentos sociais recentes que tornaram natural a ocupação de certas profissões, tradicionalmente masculinas, pelas mulheres (Aliás na produção de Gonçalo, existe mesmo uma “cestaria de mulher”, mais fina, minuciosa, frágil, e uma “cestaria de homem”, mais robusta, pesada, forte). Talvez por se tratar de uma característica tradicional da divisão do trabalho, nas oficinas familiares de Gonçalo, não se encontram cesteiras-empresárias, isto é, mulheres que além de dominarem os segredos da arte da cestaria, façam a gestão completa da sua produção, colocando-a no mercado, vendendo-a, discutindo preços com fornecedores e clientes. Para além das inevitáveis e escassíssimas exceções, que só confirmam a regra, a mulher, cesteira de Gonçalo trabalha ajudando o marido, como até há alguns anos as crianças, acabada a escola primária, eram postas a ajudar na oficina dos pais, tios ou vizinhos.

O momento atual é de crise, senão mesmo de desespero, com a produção acumulada nos armazéns, sem se vender. O declínio é palpável nos cestos que, tantas vezes, se amontoam, no olhar sombrio dos mais lúcidos, na ausência de gente nova que se dedique, a tempo inteiro, à profissão e, ainda, com a escassez de matéria-prima.

Os cesteiros trabalham, geralmente, em dependências das suas casas. Estas, tanto podem ser uma parte do andar térreo, sobre o qual se ergue o resto da habitação, como um pequeno espaço independente, construído para ser a oficina. Em qualquer destes espaços a regra é a falta de conforto, nomeadamente de luz e temperatura adequadas, o que acentua a penosidade do ofício. O cesteiro, que trabalha com materiais rijos e fibrosos, raramente usa luvas, pelo que as suas mãos estão muitas vezes cheias de cortes. A dureza dos materiais exige que, para poderem ser utilizados, sejam mergulhados em água, o que acentua, sobretudo no Inverno, o frio e o desconforto do ofício.

É nesta oficina austera que as mãos do cesteiro “erguem” os cestos que agora tem dificuldades em colocar no mercado. A invasão do mercado por similares produzidos em contextos socioeconómicos muito diversos tem vindo a gerar uma crescente perturbação. O preço dos artigos produzidos em Gonçalo tornou-se muito elevado face à concorrência.

A este fator acresce, ainda, os cesteiros de Gonçalo estarem vinculados a circuitos comerciais, muito ligados a uma ruralidade que, cada dia que passa, se faz mais memória.

Os cesteiros de Gonçalo necessitam de repensar as formas de escoamento que utilizam, desde há demasiado tempo. 

O País mudou e mudou muito. Se as feiras mantêm muita da sua capacidade lúdica, cada vez menos serão o local certo para se atingir um público esquivo, seduzido por modelos de comportamento urbano. Mas essa mesma população que massivamente tem abandonado o interior para se fixar na faixa litoral, ou nos arredores das grandes cidades, necessita dos muitos cestos que em Gonçalo se continuam a fazer com a qualidade e versatilidade de sempre. Contudo, nas grandes cidades não existem locais, bem situados, onde seja fácil, atraente e acessível comprar cestos. 

As grandes cadeias de distribuição de utilidades e pequeno mobiliário não são portuguesas e nelas só se encontram peças espanholas ou asiáticas... porventura mais caras que as de Gonçalo.

Neste contexto de profunda desadequação da oferta com os locais onde se efetiva a procura não é de estranhar a importância da crise, traduzida pela diminuição de encomendas e pelo abandono da arte pelos mais jovens, que, se nem todos sentem de igual modo, todos reconhecem. 

Finalmente, aos problemas genéricos do mercado que se colocam à cestaria de Gonçalo, acresce ainda a falta de um referente forte para esta produção, com que o público em geral se identifique. A cestaria de Gonçalo participa de um paradoxo que é o de ter uma imagem forte, mas que não aparece referenciada a um local – Gonçalo, ou mesmo à Guarda. A cestaria de Gonçalo, como, aliás, toda a cestaria, não foi incluída no discurso identitário e fortemente afetivo com que se promoveram e continuam a promover muitas produções artesanais Portuguesas.

A cestaria de Gonçalo existe de forma anónima e subsiste de forma invisível. Como o ar que respiramos.



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